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POESIA PORTUGUESA EM GOA-2
Da moderna rima luso-indiana que representa uma
mutaçâo nova da poesia Lusiada, há um ensinamento a colher para
a meditaçâo dos poetas: em Poesia só é grande quem saiba pôr
em verso de oiro a gema luminosa que
jaz nos recónditos da nossa ancestralidade!
Procurando analisar segundo os ditames de Taine
a estrutura básica do verso lusiada, brotado em terra indiana,
apontar-vos-ei dois grupos de poetas:
O primeiro em que os autores nâo tiveram com
Portugal, outro contacto espiritual, haurido através dos seus
artistas filósofos e escritores. Sâo eles em gradaçôes
sucessivas e asecensionais da rima lusitana, Floriano Barreto,
Paulino Dias e Nascimento Mendonça.
O
segundo, em que o estro poético, conquanto incubado no solo da
India, só se inflama ao contacto do ambiente metropolitano. Sâo
eles Mariano Gracias e o jóvem e lamentado Adeodato Barreto.
Todos nascidos no último quartel do século 19,
cujo berço, origem e etnia sâo familiares e permitem aplicar os
postulados de Taine ao desfibrar a génese das suas composiçôes.
Floriano Barreto é filho de uma velha familia
brámane, cristianisada desde os tempos da conquista. Aristocrata
por nascimento, delicado e franzino, mais em contacto com a vida
idealisada através da literatura europeia que com o povo da sua
terra. Como esses carateres somáticos e psíquicos nunca poderia
ser um criador de telas fortees. É o primeiro grau da poesia
indo-portuguesa: descritiva, lírica, subjectiva, com emoçôes
modeladas através de similes extrangeiros. é delicada a sua rima,
mas o verso é monótono, cinzelado a ponta de estilete. Vêde a
sua “Bailadeira” que nas dobras da sua mantilha vaporosa
recolhe a onda de desejos que brotam de peitos de homens:
“Tilinta os guisos....Saranguis lentamente
desprendem pelo espaço em languidas doçuras
harmonias de amor aveludadads, puras
que embalam a noss’alma em um sonho dolente.
Sâo soluços de amor, sâo melodias cérulas
........................sâo orvalhos de pérolas
que se evaporam no ar em turbilhâo de notas”.
Quando Floriano Barreto modela a sua “Ode ao
Coqueiro”, dir-se-ia que se desobriga
de um dever de filho da India para com a árvore secular
que é
...........................a providencia do indio,
Ninguem despreza-o, ninguem prescinde-o
Ó rei dos vegetais, ó elegante palmeira
que estendes pelo céu luminoso e fulgente
esse tufo gentil do teu leque virente
no qual farfalha terna a viraçâo fagueira
Mas quando, por entre essa toada sem
personalidade, um espasmo de épico, recondito indianismo perpassa
na sua rima, surgem versos de incontestável beleza como essa
quintilha a rematar a “Ode”.
“E à tua sombra talvez Vyassa compusesse
com a fronte vergada ao labutar da ideia
parte do Mah’barata
- a pujante epopeia –
e Valmiki entoasse, alçando a fronte ufana,
as stokas musicais do grande Ramayana”.
Um passo mais avançado nessa fusâo de Arte e
Sentimento entre a Rima Lusitana e a Orgânica Indiana é o poeta
Paulino Dias. Belo tipo drávida, esbelto, elegante, o rosto oval
de uma pureza de linhas harmónicas, os olhos em amendoa de um
negro que faísca, o tom de uma calma aparente ocultando revoltas
de volupia insatisfeita. Expressâo por vezes espasmódica,
convulsa, filha de ritmo e rima;mas alguns dos seus alexandrinos,
marmóreos como os de Guerra Junqueiro, sobretudo quando as suas
imagens sâo inspiradas na grandiosidade do cenário indiano.
Eis aquí um trecho do poema em que o
conquistador mouro rapta num corcel fogoso a linda rainha de
Udaipur, a única sobrevivente da fogueira em que se tinham lançado
todas as damas e princesas da côrte vencida:
“Como era muito linda e branca e timorata
dissera o vencedor: sob um luar de prata
heide cingi-la asós
na linha da cintura.
Estavam mortos os rajás barbados de Udaipura!
Quatorze mil ranis formosas como liras
se tinham imolado em quatorze mil piras.
Só uma salvou-a Allah! e sete véus coberta,
cheia de oiro, a andar a uma morte certa
e a chorar, a chorar que o pranto lhe caía
em pérolas na terra enternecida e fria.”
Nessa fuga desesperada por cima da ravina dá um
passo em falso o cavaleiro audaz. O abismo em frente, a morte é
certa! E no coraçâo da captiva que até ahí resmungara maldiçôes
contra o captor, tremúla o clarâo da piedade...
“De repente faltou-lhe a terra! Ahí no fundo
um grande abismo escuro; em cima o céu profundo.
Allah, Allah, Allah! Era a última ruina!
Lesta, porém, à beira da ravina
a Princesa se ergueu heroica, radiante
e susteve na quéda o cavaleiro errante.
Amparou-o tâo bem sobre o magoado peito
que o captor desmaiou sobre o macio leito.
E ela levantou os sete véus
sorrindo
e envolveu o mouro com um olhar tâo lindo!
.....................................No silencio sagrado
vinha subindo ao longe o luar imaculado...
Algo de grande como nas tragédias de Eschilo !
Mesmo nas suas líricas desenha-se uma
personalidade forte, porque Paulino Dias é filho do povo que
vibra com as emoçôes colhidas no seu proprio solo. Dahi as suas
composiçôes em que voeja o sôpro indiano serem simplesmente
magníficas.
“Rapariga que vens com um feixe de palha
de que várzea quem sabe e que distante eira
enches meu coraçâo, ó morena feiticeira
e o teu simples olhar minha alma agasalha.
E eu fui vencer dragôes, no tôpo da muralha
dos
vencidos perdia mocidade inteira.
Vim por lutar
seu nome e a note traiçoeira
para ver-te voltar com um feixe de palha.
Teu seio oscila alto e eu fico pensativo
sorris...nâo para mim, mas eu fico captivo...
Ai!...que simples tu és que me fazes tâo bem!
Quem me dera fugir das vastas derrocadas,
das horas sem alivio, altas noites cavadas,
e como tu voltar duma várzea tambem!
Para remate
da sua obra imensa, muita ainda inédita, vale a pena mencionar o seu soneto
Vyassa:
“Eu tive um sonho, vi o tôpo do Himalaia.
Picava-o o vento largo! E era um fragor de guerra,
choques, gritos de leôes, clarins, ondas na praia..
Em volta a Ariavarta, a milagrosa
terra!
Escuro! E só o monte a erguer-se de atalaia...
Mas alguem era ahí, co’o escopro, o malho e a serra
numa furia que nâo abate e nâo desmaia,
a cortar , a ferir os pedaços da serra.
E gritei a tremer, agitado de frio:
Quem é ahí no pavor que amedronta e assombra
a cortar, a rugir sobre um monte sombrio ?
Era entâo o luar um crescente de prata...
E ouvi dizer
alguem no meio da sombra: é Vyassa a esculpir o imenso Mah’barata.”
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