POESIA PORTUGUESA EM GOA-2


Alfredo de Mello

 

Da moderna rima luso-indiana que representa uma mutaçâo nova da poesia Lusiada, há um ensinamento a colher para a meditaçâo dos poetas: em Poesia só é grande quem saiba pôr em verso de oiro a gema luminosa que  jaz nos recónditos da nossa ancestralidade!  

Procurando analisar segundo os ditames de Taine a estrutura básica do verso lusiada, brotado em terra indiana, apontar-vos-ei dois grupos de poetas:

O primeiro em que os autores nâo tiveram com Portugal, outro contacto espiritual, haurido através dos seus artistas filósofos e escritores. Sâo eles em gradaçôes sucessivas e asecensionais da rima lusitana, Floriano Barreto, Paulino Dias e Nascimento Mendonça.

 O segundo, em que o estro poético, conquanto incubado no solo da India, só se inflama ao contacto do ambiente metropolitano. Sâo eles Mariano Gracias e o jóvem e lamentado Adeodato Barreto. 

Todos nascidos no último quartel do século 19, cujo berço, origem e etnia sâo familiares e permitem aplicar os postulados de Taine ao desfibrar a génese das suas composiçôes.  

Floriano Barreto é filho de uma velha familia brámane, cristianisada desde os tempos da conquista. Aristocrata por nascimento, delicado e franzino, mais em contacto com a vida idealisada através da literatura europeia que com o povo da sua terra. Como esses carateres somáticos e psíquicos nunca poderia ser um criador de telas fortees. É o primeiro grau da poesia indo-portuguesa: descritiva, lírica, subjectiva, com emoçôes modeladas através de similes extrangeiros. é delicada a sua rima, mas o verso é monótono, cinzelado a ponta de estilete. Vêde a sua “Bailadeira” que nas dobras da sua mantilha vaporosa recolhe a onda de desejos que brotam de peitos de homens:

 

 

      “Tilinta os guisos....Saranguis lentamente

        desprendem pelo espaço em languidas doçuras

        harmonias de amor aveludadads, puras

       que embalam a noss’alma em um sonho dolente.

       Sâo soluços de amor, sâo melodias cérulas

           ........................sâo orvalhos de pérolas

      que se evaporam no ar em turbilhâo de notas”.

 

Quando Floriano Barreto modela a sua “Ode ao Coqueiro”, dir-se-ia que se desobriga  de um dever de filho da India para com a árvore secular que é

 

       ...........................a providencia do indio,

Ninguem despreza-o, ninguem prescinde-o

Ó rei dos vegetais, ó elegante palmeira

que estendes pelo céu luminoso e fulgente

esse tufo gentil do teu leque virente

no qual farfalha terna a viraçâo fagueira

 

Mas quando, por entre essa toada sem personalidade, um espasmo de épico, recondito indianismo perpassa na sua rima, surgem versos de incontestável beleza como essa quintilha a rematar a “Ode”.

 

                        “E à tua sombra talvez Vyassa compusesse

                          com a fronte vergada ao labutar da ideia

                          parte do Mah’barata  - a pujante epopeia –

                          e Valmiki entoasse, alçando a fronte ufana,

                          as stokas musicais do grande Ramayana”.

            

Um passo mais avançado nessa fusâo de Arte e Sentimento entre a Rima Lusitana e a Orgânica Indiana é o poeta Paulino Dias. Belo tipo drávida, esbelto, elegante, o rosto oval de uma pureza de linhas harmónicas, os olhos em amendoa de um negro que faísca, o tom de uma calma aparente ocultando revoltas de volupia insatisfeita. Expressâo por vezes espasmódica, convulsa, filha de ritmo e rima;mas alguns dos seus alexandrinos, marmóreos como os de Guerra Junqueiro, sobretudo quando as suas imagens sâo inspiradas na grandiosidade do cenário indiano.  

Eis aquí um trecho do poema em que o conquistador mouro rapta num corcel fogoso a linda rainha de Udaipur, a única sobrevivente da fogueira em que se tinham lançado todas as damas e princesas da côrte vencida:

 

          “Como era muito linda e branca e timorata

           dissera o vencedor: sob um luar de prata

           heide cingi-la  asós na linha da cintura.

           Estavam mortos os rajás barbados de Udaipura!

           Quatorze mil ranis formosas como liras

           se tinham imolado em quatorze mil piras.

          Só uma salvou-a Allah! e sete véus coberta,

          cheia de oiro, a andar a uma morte certa

          e a chorar, a chorar que o pranto lhe caía

          em pérolas na terra enternecida e fria.”

 

Nessa fuga desesperada por cima da ravina dá um passo em falso o cavaleiro audaz. O abismo em frente, a morte é certa! E no coraçâo da captiva que até ahí resmungara maldiçôes contra o captor, tremúla o clarâo da piedade...

 

         “De repente faltou-lhe a terra! Ahí no fundo

           um grande abismo escuro; em cima o céu profundo.

           Allah, Allah, Allah! Era a última ruina!

           Lesta, porém, à beira da ravina

           a Princesa se ergueu heroica, radiante

           e susteve na quéda o cavaleiro errante.

           Amparou-o tâo bem sobre o magoado peito

           que o captor desmaiou sobre o macio leito.

           E ela levantou os sete véus sorrindo

           e envolveu o mouro com um olhar tâo lindo!

          .....................................No silencio sagrado

          vinha subindo ao longe o luar imaculado...  

Algo de grande como nas tragédias de Eschilo !

 

Mesmo nas suas líricas desenha-se uma personalidade forte, porque Paulino Dias é filho do povo que vibra com as emoçôes colhidas no seu proprio solo. Dahi as suas composiçôes em que voeja o sôpro indiano serem simplesmente magníficas.

 

          “Rapariga que vens com um feixe de palha

           de que várzea quem sabe e que distante eira

           enches meu coraçâo, ó morena feiticeira

           e o teu simples olhar minha alma agasalha.

 

          E eu fui vencer dragôes, no tôpo da muralha

          dos vencidos perdia mocidade inteira.

          Vim  por lutar seu nome e a note traiçoeira

           para ver-te voltar com um feixe de palha.

 

           Teu seio oscila alto e eu fico pensativo

           sorris...nâo para mim, mas eu fico captivo...

           Ai!...que simples tu és que me fazes tâo bem!

 

          Quem me dera fugir das vastas derrocadas,

          das horas sem alivio, altas noites cavadas,

          e como tu voltar duma várzea tambem!

 

Para remate  da sua obra imensa, muita ainda inédita,  vale a pena mencionar o seu soneto Vyassa:

            “Eu tive um sonho, vi o tôpo do Himalaia.

              Picava-o o vento largo! E era um fragor de guerra,

              choques, gritos de leôes, clarins, ondas na praia..

              Em volta a Ariavarta, a milagrosa terra!

 

              Escuro! E só o monte a erguer-se de atalaia...

              Mas alguem era ahí, co’o escopro, o malho e a serra

              numa furia que nâo abate e nâo desmaia,

              a cortar , a ferir os pedaços da serra.

 

              E gritei a tremer, agitado de frio:

              Quem é ahí no pavor que amedronta e assombra

              a cortar, a rugir sobre um monte sombrio ?

 

              Era entâo o luar um crescente de prata...

              E ouvi dizer alguem no meio da sombra:

              é Vyassa a esculpir o imenso Mah’barata.”


Alfredo de Mello
Jun 20, 1999                                             
 

 

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