POESIA PORTUGUESA EM GOA

por   Froilano de Mello,  1947


Alfredo de Mello


 

A semente da poesia portuguesa foi lançada em Goa por Tomás Ribeiro. Pertencia à Escola Romantica que floriu em Portugal após a revoluçâo liberal de 1820, com Garrett, Herculano e Castilho pontificando nas letras nacionais.Nos cenáculos literários andava o seu nome ligado às estrofes do D.Jaime; nas festas de arte recitavam os virtuosos as rimas da sua judia. E este poeta foi à India num posto burocrático. E encantado com as belezas da terra que uma patricia sua  - a poetisa Florencia de Morais  - diria quarenta anos mais tarde:

     “A India é fonte sempre viva e perturbante

      como os beijos da primeira amante”

deu largas ao seu astro criador. As crianças nas escolas ainda hoje repetem os seus alexandrinos_:

 

     VELHA GOA

 

“Eis a cidade morta, a solitaria Goa

seus templos alvejando num palmar enorme!

Eis o Mandovy-Tejo, a oriental Lisboa,

onde em jazigo régio imensa gloria dorme”

 

Jaz em tristeza imersa a tétrica cidade!

O turbilhâo dourado, o estrondear da festa

envolve-os em seu corpor a mística saudade

e abisma-os no mistério a pávida floresta.  

 

Nós somos do passado a tímida memória

buscando os seus avós no palmeiral funéreo

que apenas sobredoura um ténue alvor de gloria

como de fátua luz se esmalta um cemitério”

 

Mas Tomás Ribeiro nâo era alma que se deixasse anestesiar na estéril contemplaçâo do passado. Tinha fé que alimenta a chama criadora. E alimentado por essa fé cercou-se de um grupo de jovens goeses e fundou uma sociedade de Letras: O Instituto Vasco da Gama.

Foi fecunda a obra desse Instituto. O temperamento de Cunha Riava dotou-o, com já disse, de um escol de historiógrafos que reeditando a alma dos velhos e inesgotáveis cronistas de Seiscentos honram a Historia Portuguesa no Oriente. O génio de Tomás Ribeiro gerou uma floraçâo de poetas que imprimiram um encanto novo à rima Nacional.

Mas esse encanto nos poetas goeses atinge o seu climax sómente quando o seu cântico traduz em verso português as lendas e imagens indiáticas, ora esculpidas nos berços embalando infantes a adormecer, ora sentidas e vividas mais tarde nos fragores da vida ou nos espasmos da Natureza convulsionando as copas dos palmeirais. Porque sâo mais belas  que as cançôes das Niebelungen as lendas com que as aias na India povoam de maravilhas as nossas almas infantis: o poder supradivino da esposa virtuosa, a vitória do Amor sobre a Morte  - Savitri arrancando a Yama, o deus da Morte, a vida já extinta do seu esposo Satiavan, a sagrada hospitalidade do Rei de Benares, a lenda da metempsicose...


Alfredo de Mello
Jun 20, 1999                                             
 

 

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